sábado, 15 de março de 2014

Qualquer dia a gente se vê ?

Nunca havíamos brigado. Começávamos o quinto ano de amizade, e nunca houve uma briga, óbvio que discutíamos, mas sempre tudo terminava bem, entre risos e brincadeiras.
A nossa convivência era deveras intensa, passávamos semanas inteiras juntos, dormíamos no mesmo quarto e, às vezes, na mesma cama. 
Você era tudo que eu gostaria de ser: bonito, divertido, inteligente, querido por todos, parecia o homem mais feliz do universo. Era assim como eu te via. Não sei como você me via, mas sinto que gostava de mim. 
Mas eu, ao tanto te idealizar, cometi um erro perigoso. Estar perto de você, ao mesmo tempo que me fazia bem, me fazia mal. Era como se no nosso encontro ficasse mais evidente a nossa distância, aquilo que eu jamais seria, e ao mesmo tempo, era quando todas as minhas qualidades se potencializavam. 
Ontem, após algumas doses a mais de vodca, finalmente te falei isso tudo. De como eu me sentia uma bengala para você. Fui injusta, confesso. Nesse tempo todo houve um apoio tão mútuo entre nós. E você, colocou em dúvida todo o meu sentimento, toda a nossa relação. Estávamos deitados na mesma cama, mas nunca me senti tão distante de alguém quanto naquele momento. 
"Nos afastaríamos", era seu veredito! Era tudo que eu não queria. 
Eu precisava aprender a me amar, para perceber que mereço o teu amor.
E ver que há muito mais semelhanças que nos unem, que diferenças que nos segregam. 
Você disse também que nada será como antes, foi imediato a associação com a música. Pode ser que nada seja como antes, e de fato, tudo muda a todo momento, mas espero que um gosto de sol ainda resista, e não só o sabor do fracasso, que eu sinto de novo. 

Ontem a noite, mais uma vez, dormimos na mesma cama. Infelizmente, um de costas pro outro.



terça-feira, 4 de março de 2014

Sem poesia

Dia desses, Henrique me contou que havia chorado ao assistir um seriado, pois, sabia que jamais teria uma vida como a das personagens da série. Obviamente, havia um pouco de exagero na fala dele, pensava eu. 

Hoje, eu estava vendo vídeos aleatórios no youtube, e me deparei com um episódio de um seriado qualquer. E cai em lágrimas, ao assisti-lo. Pensei exatamente a mesma coisa que ele: eu jamais teria uma vida como a das personagens, nunca uma história como aquela aconteceria comigo. No entanto, me identifiquei profundamente com uma das protagonistas e com sua busca, e não consegui entender porquê não alcancei, até então, o mesmo desfecho. 

O que falta para que tenhamos a vida que queremos ter ?

Me surge uma resposta, de uma crônica já antiga, todavia, extremamente cabível - e dolorosa- pra esse caso:

"É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria - e não o que é. É porque ainda não sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele." *

As palavras de Clarice são cortantes como um punhal cravado no peito, mas ao invés de sangue, o que escorre, após a leitura, são lágrimas.

Ao fim de tudo, após lágrimas, músicas e lembranças, penso que esse sentimento de impotência, perante a vida e o próprio destino, é apenas carência e uma vontade de encontrar um amor tranquilo, mesmo que isso signifique a perda de toda a poesia, que só os amores impossíveis e vorazes nos proporcionam.


* Perdoando Deus, Clarice Lispector, 19/9/1970.

Trilha sonora para o texto:
http://www.youtube.com/watch?v=prwDgGYFTxc

http://www.youtube.com/watch?v=DGh0FLLqy48

http://www.youtube.com/watch?v=vSY8xSrymnM